sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Como comecei a ler livros."



por Luiz Biajoni Meus pais não eram de ler livros, mas sempre tinha jornais em casa. A primeira coisa que me lembro de ler de fato e me impressionar foram as sinopses de filmes na programação de TV do jornal. Eu adorava aquilo, lia todas as sinopses. Assim nasceu meu gosto por sinopses, já pensei em lançar um livro só com sinopses. Imagina quanto tempo seria poupado, do escritor e do leitor. Em três linhas resolveríamos a história. “Ladrão internacional rouba ex-chefe nazista. Gangue do chefe o persegue. Ele acaba se apaixonando pela esposa do chefe”. O que acontece no meio do filme (ou do livro) ou no final todo mundo sempre sabe. No meio, é aquela correria, aquele monte de mal entendido… No fim, o mocinho fica com a mocinha. E fim.

Meu avô sempre gostou de ler e tinha um baú na casa dele com um monte de livros velhos. Eu gostava dos livros mesmo sem ter lido. Eu ficava olhando os nomes e as capas e imaginando as sinopses das histórias. Recordação da Casa dos Mortos, de um tal Dostoiévski. O Primo Basílio, de um tal Eça de Queirós. Eu gostava desse nome, queria ter um amigo que chamasse Eça para poder dizer “Eu gosto do Eça à beça!”. Na verdade, pegava esse livro, ficava olhando para o nome e pensava: “O quer será que o primo Basílio fez? Deve ter sido alguma vingança com a família que lhe deu esse nome esquisito…” Nessa mesma coleção do meu avô encontrei um livro que me chamou a atenção e que levei para casa e li e reli e me encantou. Não foi exatamente dos primeiros que li, mas um dos que mais me impressionaram: Os Heróis, de Charles Kingsley.

Eu conhecia alguns heróis, mas não aqueles do livro. Eu conhecia heróis do Gibi. Meu pai tinha um tio mecânico de automóveis que tinha toda a coleção dos Gibis. Quando estudava de manhã e não tinha nada para fazer à tarde, pegava minha bicicletinha e ia até a Oficina do Fleury, sentava lá no fundo, e ficava lendo as aventuras de Flash Gordon, O Príncipe Valente e Nick Holmes – o meu preferido.

Quando estava aí para completar meus 12 anos, foi lançado no Brasil os gibis “Heróis da TV” com os heróis Marvel. Eu nunca soube a razão dos gibis terem esse nome, se não passava desenho de nenhum deles na TV. Enfim. Comecei obrigar meu pai a comprar. E tomei contato com todos esses heróis maravilhosos do Stan Lee, um verdadeiro construtor de mitos modernos.

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No colégio, não sei por que cargas d’água, me botaram para tomar conta da biblioteca. Não lembro se foi um lance voluntário, mas, quando vi, tinha que estar na biblioteca duas vezes por semana no período da manhã – eu estudava à tarde nessa época – e registrar se alguém chegava para retirar um livro. Poucas vezes chegava alguém. E como não tinha nada pra fazer, ficava lendo umas coisas lá.

Também no colégio eu tinha uns amigos que gostavam de ler de verdade. A gente ia até a biblioteca municipal e ficava lá por horas pesquisando livros, lendo, retirando volumes que nunca foram abertos. Mas era uma aventura! E pegava bem aparecer com livros grossos em casa. Lemos algumas coisas interessantes como as versões resumidas de Moby Dick, Dom Quixote ou O Conde de Monte Cristo. Lembro de ter lido uma versão quadrinizada bastante boa do Hamlet de Shakespeare – quando li o original, me bateu a nostalgia: preferia a versão quadrinizada!

As professoras de português, a Dona Vera e a Dona Marlene, nos davam bons livros (tirando o Iracema do José de Alencar, que eu de-tes-tei!). Começamos com a famosa Coleção Vaga-Lume, cujo Mistério do Cinco Estrelas é o meu favorito, até alguns outros infanto-juvenis, como O Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, meu preferido de todos os tempos, um livro que influenciou muito minha geração de trintões metidos a escritores. Nos sentimos todos verdadeiramente homens e leitores depois de Dom Casmurro, do Machado; e O Cortiço, do Aluísio de Azevedo – esse sim, um livro quente!

Uma minha tia, a mais nova de quatro irmãos, foi fazer letras e estava sempre com livros em casa. Sempre tinha uma coletânea do Drummond, do Quintana… Ela também tinha aquela coleção “Para Gostar de Ler”, e eu lia – não para gostar, nunca achei que fosse gostar, mas, quando vi, já estava gostando. No meu aniversário de 11 anos, e em todos os outros posteriores, ela me deu um livro. Incluído um dos que mais me deram prazer. Foi Memórias de Um Cabo de Vassoura, do Orígenes Lessa.

Nesse período, não lembro quem me deu, algum parente ou amigo de meus pais, um livro que também amei: O Menino do Dedo Verde, do Maurice Druon.

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Um tio sempre gostou de ler e a casa dele sempre teve prateleiras cheias de livros. Tinha uns livros bem estranhos ali, de uns autores que nunca tinha ouvido falar e com títulos bem estranhos. Um deles chamava O Templo de Satã, de Stanilas de Guaita. Eu sempre folheava aquele livro com um medo do cão! Tinha uma receita para fazer uma pessoa! E tinha umas frases que, se você falasse em voz alta, podia morrer instantaneamente! Nunca falei. Acho que por isso que estou aqui vivo até hoje.

Eu achava que meu tio era alguma espécie de bruxo. Uma vez pedi um livro para ele, de presente. E ele me deu as Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe. Aquilo sim me deu medo. A história do gato preto é uma das minhas preferidas até hoje.

Nessa época, dos 12 ou 13 anos, alguém me emprestou O Exorcista, do Peter Blatty. Eu li in-tei-ri-nho! Não sei como, até hoje tenho arrepios de pensar. Uma vez estava lendo o livro na cama antes de dormir e a cama tremeu! Eu juro!

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Um dia minha mãe pegou um ônibus e encontrou um livro lá. Era O Tocador de Tuba, do Chico Anísio. Ela chegou em casa com o livro, ninguém sabia que o humorista era escritor. Eu falei “Deixa eu ver isso aí!” – como se fosse um grande conhecedor de literaturas. Em poucos minutos tinha lido o livro. Um livro saboroso, delicioso, injustamente fora de catálogo há muito tempo, cheio de causos nordestinos transbordando humor.

Nesse período época eu me achava algum tipo de intelectual, já que eu gostava de ler de verdade enquanto meus amigos continuavam afirmando que ficar correndo atrás de uma bola era uma coisa muito melhor para se fazer. Bobagem. Você vai correr atrás de uma bola hoje e vai correr atrás de uma bola amanhã e a cena vai ser sempre você correndo como um idiota atrás de uma bola. Eu lia uma página nesse minuto e, no outro, estava vivendo outra aventura. Era outra cena, outra situação. Podia estar no Nordeste com o Chico Anísio ou no Egito com um pesquisador de demônios; podia estar nas terras míticas com Jasão e os Argonautas ou vivendo o drama realista de um menino com o dedo verde – onde ele tocava nascia uma planta. Podia estar acompanhando o terror de um homem perseguido por um vingativo gato preto ou desvendando um crime com Sherlock Holmes.

Tudo era muito divertido. E tudo é muito divertido, pois a capacidade humana de criar, reinventar histórias e contá-las não tem fim. Eu gosto e lê-las e de criá-las. Acho que nossa vida fica muito melhor com elas.

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