terça-feira, 15 de setembro de 2009

Albertina

- O Senhor quer que eu arrume seu quarto?
- Quero.
- Tá.
Quarto arrumado, Albertina se detém no meio da sala, vira o rosto para o outro lado, toda encabulada, quando fala comigo:
-Posso varrer a sala?
-Pode.
Tá.
Antes que ela vá buscar a vassoura, chamo-a:
-Albertina!
Ela espera, assim de costas, o dedo correndo devagar no friso da porta.
-Não seria melhor você primeiro fazer café?
-Tá.
Depois era o telefone:
- Telefonou um moço aí dizendo que é para o senhor ir num lugar aí buscar não sei o quê.
- Como é o nome?
- Um nome esquisito...
- Quando telefonarem você pede o nome.
- Tá.
- Albertina!
- Senhor?
- Hoje vai haver almoço?
- O senhor quer?
- Se for possível.
- Tá.
Fazia o almoço. No primeiro dia lhe sugeri que fizesse pastéis, só para experimentar. Durante três dias só comi pastéis.
- Se o senhor quiser que eu pare eu paro.
- Faz outra coisa.
- Tá.
fez empadas. Depois fez um bolo. Depois fez um pudim. Depois fez um despacho na cozinha.
- Que bobagem é essa aí, Albertina?
- Não é nada não senhor- disse ela.
- Tá- disse eu.
E ela levou para seu quarto umas coisas, papel queimado, uma vela, sei lá o quê. O telfone tocava.
- Atende aí, Albertina.
- è para o senhor.
- Pergunte o nome.
-Ó.
- O quê?
- Disse que chama Ó.
Era o Otto. Aproveitei-me e lhe perguntei se não queria me convidar para jantar em sua casa.
Finalmente o dia da bebedeira. Me apareceu bêbada feito um gambá; agarrando-me pelo braço:
- Doutor, doutor... A moça aí da vizinha disse que eu to beba, mas é mentira, eu não bebi nada... O senhor não acredita nela, tá com ciúme de nóis!
Olhei para ela, estupefato. mal se sustentava sobre as pernas e começou a chorar.
- Me larga!- gritei, empurrando-a. Tive logo em seguida de ampará-la para que não caísse:- Amanhã você arruma suas coisas e vai embora.
- Deixa eu ficar...Não bebi nada, juro!
Na cozinha havia duas garrafas de cachaça vazias, três de cerveja. Eu lhe havia ordenado que nunca deixasse faltar três garrafas de cerveja na geladeira. Ela me obedecia à risca: bebia as três, comprava outras três.
Tranquei a porta da cozinha, deixando-a nos seus domínios. Mais tarde soube que invadira os apartamentos vizinhos fazendo cenas. No dia seguinte ajustamos as contas. Ela, sobria, mal ousava me olhar.
- Deixa eu ficar- pediu ainda, num sussurro. - Juro que não faço mais.
Tive pena:
- Não é por nada não, é que não vou precisar mais de empregada, vou viajar, passar muito tempo fora.
Ela ergueu os olhos:
- Nenhuma empregada?
- Nenhuma.
- Então tá.
Agarrou sua trouxa, despediu-se e foi-se embora.

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